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Partindo dos testemunhas fiéis.
Iniciamos nossa partilha com um rico intercambio avaliativo sobre o Congresso realizado em Lima (5-6 de agosto) sobre Martírio e a Romaria dos Mártires a Pariacoto (8-0 de agosto). A este primeiro momento de nossa partilha, participaram também o ministro geral, frei Marcos Tasca e o assistente geral pela Falc, frei Jorge Fernandez. Unanimemente avaliamos que os dois momentos, do congresso e da Romaria, tiveram um bom êxito, sob todos os pontos de vista, celebrativo, pastoral e da memória histórica e emotiva.
Necessitamos, no atual momento, de um discernimento profundo e participativo sobre a herança de martírio, como Ordem e no âmbito da formação em América Latina, que esses nossos dois irmãos e outros mártires de hoje nos deixam. Neste sentido, o proprio Ministro geral encorajou a prosseguir com o serviço do Mire-falc que, afirmou, é uma contribuição original e esperançosa que vem quase exclusivamente da AL.
Nossa reflexão sobre conventualidade iniciou propriamente examinando os textos\ contribuições de alguns dos participantes sobre as características de uma chamada “conventualidade latino-americana”. Os pontos a seguir sintetizam as leituras feitas e os ricos intercâmbios fraternos, entre os participantes.
Memória histórica para avaliar e discernir o hoje
Emergem, em AL, estilos de vida franciscana que dependem das realidades fundadoras, com todo o que isso comporta de uma cultura transplantada nestas terras latinas. O perigo é ficar com a cultura dos fundadores pelos quais, sem dúvida nenhuma, é necessário passar mas sem deixar de entrar na dinamicidade que todo carisma oferece.
Estamos presenciando à recuperação da memória histórica. O conhecimento da história franciscana universal e na AL, talvez tenha que assumir com mais lucidez, critérios hermenêuticos novos; a finalidade maior é conhecer e estudar a presença franciscana conventual para ver “como” se viveu e se deve viver nossa identidade em terras latinas. É importante conjugar a aproximação diacrônico e a sincrônico; fazer memória criativa, valorizando vários elementos outros como a sabedoria dos ancestrais e não permanecer somente na história dos conventuais em AL que é recente demais. A história, entendida num sentido estrito, não é o único lugar para entender a conventualidade e o profetismo.
A matriz carismática da Ordem deve ser buscada em diálogo com as matrizes culturais em mudança, à luz de um discernimento fraterno e evangélico.
O franciscanismo nasce em época de crise e de grande mobilidade, com características parecidas às nossas. O convento foi lugar de produção simbólica e intelectual. Tem certo descenso quando se criam as nações e nascem padrões mais estáveis que produzem pouca mobilidade. Recupera seu ascenso nos países “novos”, como são as Américas que vão se formando com uma grande mobilidade que obriga ao diálogo e à proposta cultural e vivencial.
Encarnados nos cenários do mundo atual.
Hoje, além da história e da sociedade, é o mesmo cosmos que nos interpela. É voz do Espírito que nos fala. O franciscanismo, portanto, é movimento chamado a viver nos cenários do mundo atual: ecologia, migrantes, mulheres, pobres, minorias étnicas etc. Seria um erro descolar do mundo que nos cerca, como fosse algo a parte, uma reflexão sobre conventualidade e sobre nossa identidade. Seria uma abstração daninha e desviante.
Os franciscanos devem manter horizontes abertos em tudo o que se refere à sua presença e significatividade na AL, sem limitar-se a um só modelo de igreja e de compromisso pastoral, sendo irmãos que saibam dialogar com as diferentes culturas e com a própria criação. A interculturalidade torna-se, a expressão moderna e atual da itinerância franciscana. Como nos diz a Bíblia e o próprio Francisco, somo “forasteiros e peregrinos”, talvez no sentido de “nômades”, cuja referência, mais do que o território, é o interior de cada pessoa. A inter-relação entre irmãos e com todas as instâncias territoriais e cósmicas, em diálogo enriquecedor, em comunhão, é a maneira de viver nosso sermos irmãos menores conventuais hoje. Nesta moldura, o convento - cum-venire - é visto em primeiro lugar como espaço de encontros, instância humana que escolho para ser franciscano e que, não obrigatoriamente se identifica com um lugar; é um âmbito de reciprocidade afetiva, construída e expressada em sintonia, não em aceitação puramente ideal do outro distinto de mim.
Conventualidade, como algo que pertence ao franciscanismo como um todo.
O convento, portanto, deve ser espaço de relações cálidas e profundas. O perigo atual poderia ser a cultura virtual que desvirtua o encontro humano e o sentido concreto de pertença a um grupo, o viver e sentir-se em família. Isto se opõe à atual cultura fluida de se relacionar em rede mas a complementa ancorando-nos a um território e a um grupo humano.
O conventualismo pode ser caracterizado assim como algo que pertence ao franciscanismo como um todo. De fato, hoje na AL, se vive uma unidade espiritual e pastoral entre as três famílias franciscanas, mesmo que não se possam negar diferenças entre as maneiras concretas e institucionalizadas de viver as relações fraternas na comunidade e na relação com a autoridade. Na Europa, as diferenças são mais marcantes pois alí se parte normalmente delas para viver as características próprias.
Em certo sentido parece que se pode dizer que não existe uma conventualidade latino americana. De fato tem características fundamentais que devem ser aplicadas, de maneira fiel e criativa, ao carisma do fundador e às realidades próprias de cada área geográfica e ambiente humano. A América Latina tem suas características próprias que são desafios para encarnar nossa identidade aqui e agora.
Categorias evangélicas radicais como critérios.
Existem três tipos de presença por zonas: urbanas, rurais ou pequenos povoados, missionários junto às presenças indígenas, negras, populações migrantes, sem terra...menores carentes e de rua,... Há modelos pastorais: paroquiais, educativos e outros ministérios (meios de comunicação, pastorais sociais específicas..). O problema maior da AL que pode impedir as mudanças é o fato de estarmos condicionados por estruturas que nos comprometem do ponto de vista histórico e cultural. Ao mesmo tempo somos determinados por necessidades econômicas que, ás vezes, nos levam a buscar compromissos mas rentáveis, visíveis e fáceis do que os de cunho mais franciscano. É fundamental a formação para adquirir categorias evangélicas e franciscanas na hora de tomar decisões sobre as presenças e as obras.
Relacionados, em “capítulo conventual”.
O núcleo essencial de nossa identidade franciscana não é estático e fechado mas dinâmico e aberto: uma fraternidade que realiza seus discernimentos é evangélica e “nômade” material e espiritualmente. O capítulo conventual desempenha, neste sentido, um papel fundamental.
A conventualidade é um modo de sermos franciscanos num lugar e espaço aberto; é relacionalidade cultural muito livre e diferenciada que não se distingue, porém, das demais famílias franciscanas, porque é algo que inclui, que nos une e nos faz pertencer, por causa disso, ao carisma do fundador. Possivelmente as duas características essenciais da conventualidade sejam: a dinâmica fraterna interna e o diálogo permanente com as culturas e o mundo que nos leva a reinventarmos permanentemente nossas posturas. Isto nos leva a nos aproximarmos aos demais sem preconceitos, com livre humildade, a fim de conhecer, deixar-se envolver e enriquecer mutuamente.
Riepílogando, talvez a contribuição própria da AL poderia ser a seguinte. Não se pode definir a conventualidade como uma concreção histórica determinada, como algo a ser reproduzido ao longo dos tempos, mas como algo dinâmico, em porvir. A Ordem não como “ordem” mas sim como espaço “caótico” que impulsiona a uma busca constante, fiel, criativa; uma espaço aberto ao diálogo ad intra e ad extra. Isso se contrapõe a uma “ordem” concebida por umas instancias culturais cartesianas, hoje em crise, de domínio da realidade. Precisaria favorecer hoje ma“desordem” ou “fractalização” interior (estrutura geométrica complexa cujas propriedades, em geral, repetem-se em qualquer escala).
Segundo nosso parecer, todo mundo está convencido disso mas, ao mesmo tempo, sem dúvida, há resistências interiores e medos de assumir um novo estilo de conventualidade. De repente, as casas de formação em comum, poderiam veicular estes novos modelos e anélitos, na direção de um caminho latino-americano de presença franciscana menor conventual.
Fray Mateus Ornelli,
Custódio ofmconv de Venezuela